quarta-feira, 25 de junho de 2008

ACA - CPJ

Mais um Retalho...
Outros momentos que a vergonha guardou.
22 de abril de 2007
Centro de Promoção Juvenil. Esse nome já me soava nos ouvidos quando deixei esta casa, ainda com o nome de Albergue das Crianças Abandonadas.
Quantas vezes bordei a ponto cruz as iniciais A.C.A.! Quantas lágrimas me rolaram no rosto pela vergonha que esse nome ainda me faz sentir!
Quantas vezes pensei voltar a subir aquela rua íngrime e passar aquela porta pesada e enorme, rever cada canto... a minha primeira sala de aulas, os quatro dormitórios, o "ginásio" enorme com a sua imensa clarabóia e o chão frio, onde me sentei no primeiro dia, um dia do mês de Outubro do ano de 1965, junto de um grupo de meninas a olhar uma televisão a preto e branco, em absoluto silêncio.
Ali, sentada naquele chão frio, deixei de ter nome, passei a ser mais um número, o 25. Quantas vezes bordei a ponto cruz A.C.A. 25, a minha nova identificação.
Tento lembrar sentimentos de revolta, medo, dor, angústia, ódio... não recordo nada, não posso recordar o que não senti. Nesse dia e nos dias que se seguiram, apenas o vazio e a falta de emoções tomaram conta de mim. Hoje, sinto a dor de não ter aprendido a viver!
Já não sou a 25, tenho um nome, mas ainda associo o 25 ao A.C.A. Está tatuado na minha memória.
16 de Novembro de 2007
Há alguns dias encontrei-me com o passado. Apareceu no meu caminho uma menina de caracóis louros que diz já não os ter, mas é a imagem que dela guardo. Muitas outras memórias encontrei quando falámos. Memórias que julguei perdidas. Pediu-me que não a esquecesse. Prometo que não te esquecerei, de ti não tenho vergonha, só me envergonho de ter deixado que me roubassem os momentos que não vivi.
31 de Maio de 2008
Não cumpri o meu objectivo. Não sei bem porquê. Devo ter sido eu a afastar-me, como quase sempre faço, quando um medo desconhecido me persegue. À menina dos caracóis louros, que diz já não os ter, fiz uma promessa. Perdi-a, mas garanto que não a esqueci. Onde quer que estejas penso em ti.
Perdoem-me as outras meninas, com caracóis ou sem eles, que vão passando naquela casa que ainda sinto um pouco minha. Não vos conheço, mas trago-vos no coração. Perdoem o meu desânimo.

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