sábado, 17 de janeiro de 2009

Retalhos encontrados no sótão, sem teias de aranha

12 de Dezembro de 2006

Dia 25 de Dezembro poderá ser Natal para quem consegue reunir os seus entes mais queridos. Sem ostentação, vaidade, competição... em verdadeiro espírito natalício. Em pleno estado de felicidade.
Mas seremos capazes de vivê-lo em paz sem recordar os ausentes; os que se encontram em estado de solidão; os marginalizados; os que nunca viveram o Natal, nem sabem o que isso é; os que no lugar de uma mesa recheada das mais variadas iguarias, procuram, no lixo, os restos que sobraram aos mais afortunados, e com eles preenchem um pouco do seu já diminuto estômago faminto; os seres humanos, especialmente crianças, que morrem a cada segundo, vítimas da FOME e da necessidade dos mais básicos meios sanitários e cuidados de saúde?
Só com muito egoísmo conseguiremos engolir o nosso bacalhau, o perú e o bolo-rei sem sofrermos uma forte indigestão.


Uma só pessoa não consegue mudar o mundo, mas um só ser humano, pequenino e inocente, conseguiu tornar-me mais consciente, e mudar o meu modo de agir e pensar. Não é este o mundo, que estou a ajudar a "destruir", que quero deixar-lhe como herança.

À minha neta, Ana Catarina:

"Quero ter, vários dias de Natal, ao longo do ano. Não faço questão de comemorá-lo no dia 25 de Dezembro. Para mim é Natal, sempre que te vejo; quando me chamas avó; quando ouço as tuas gargalhadas de alegria; quando vejo o teu sorriso de menina feliz; quando te "vejo" crescer e desenvolver com saúde; quando adormeces no meu colo, com a tua cabecinha no meu ombro e o teu corpinho bem juntinho ao meu; quando te nasceu o primeiro dentinho, mesmo sem o ter visto; quando deste, sozinha, os teus primeiros passinhos e eu não estava presente; quando comeste a tua primeira sopinha e também não vi... quando... quando..."

Também é Natal quando, anonimamente, Alguém conforta ou, de qualquer modo, minimiza a dor de quem sofre; quando, voluntariamente, sem qualquer interesse material, Alguém "perde" alguns minutos da sua atarefada vida, e sem pena, sem críticas, sem julgamentos nem condenações oferece o seu ombro, com amor, para o seu semelhante derramar as suas lágrimas, em silêncio, e aliviar a dor que o atormenta; quando Alguém, com tolerância, ouve a opinião do seu próximo, familiar, amigo, vizinho, colega de trabalho... e a aceita mesmo que dela discorde, sem se julgar dono da verdade; quando Alguém, em posição superior, trata os seus colaboradores com justiça, humanidade e sem humilhações; quando Alguém tem a capacidade de perdoar, uma suposta ofensa; quando Alguém não encobre os seus erros, desculpando-se com os do próximo, nem mente para se justificar... quando... quando...

Não me incomodarei mais, com críticas e censuras. Não agirei, para agradar a quem quer que seja, só porque "me fica bem". Farei o que a minha consciência me ditar. Não o que esperam que eu faça. Não conseguirei vencê-los, mas também não me juntarei a eles.
Culpas, hei-de senti-las sempre, mas só as minhas, não as que me quiserem atribuir.
Quero ser diferente? Talvez! Mas ser diferente dos indiferentes!
Sei que não estou só. Felizmente, ainda há SERES HUMANOS dignos deste estatuto.
Ainda tenho muito caminho a percorrer, nunca atingirei a perfeição, mas continuarei a caminhar. O percurso é longo, cairei algumas vezes, mas sempre que me erguer terei, decerto, aprendido a dar o passo seguinte, com mais segurança.

... Não quero participar mais, na hipocrisia em que transformámos o Natal. O verdadeiro espírito de Natal já o perdemos. Os valores mudaram e somos todos responsáveis por isso. Estamos a contribuir para aumentar o consumismo e transmitimo-lo às nossas crianças, que se tornarão cada vez mais exigentes. Quanto mais têm, mais querem. Incutimos-lhe esse espírito, para compensá-las do tempo de que não dispomos para lhes dar a devida atenção. Nada substitui a presença e atenção dos pais, dos familiares e amigos. Depois, quando começam a fazer exigências, castigamo-las pela nossa irresponsabilidade. Daí nascem as revoltas e os conflitos que não conseguimos gerir.



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